Exposição Stella Mariz

A presente exposição é o produto resultante de um período em que me aprofundei no estudo da história da pintura de paisagens e a história da manufatura das tapeçarias Gobelains e Beauvais. São releituras que transitam entre a pintura e a escultura. Após uma viagem à Portugal em que fotografei exaustivamente as ruinas do Castelo de Marialva, volto com estas fotos e me proponho a relacioná-las ao momento presente. A partir daí comecei a fotografar paisagens urbanas, principalmente no Rio de Janeiro, e florestas e vegetações. Com estas fotografias passei a conceber composições como espaços, em que relaciono as ruínas à paisagens, e ao verde da nossa vegetação tropical. Passei a imprimir estas composições. Ao estuda-las percebi que a bi-dimensionalidade não me era o suficiente. Faltava o manuseio do trabalho e o volume. A partir desta falta, eu como escultora que sou a vida inteira, concebi uma técnica em que transformo a bidimensionalidade da fotografia em tridimensional. Esta transformação é feita através da mano-fatura, totalmente feita por mim. Eu imprimo a composição fotográfica, plano a plano em tecido, e o volume é obtivo a partir da costura com agulha ou à máquina, utilizando manta acrílica, e quando quero projetar mais ainda o volume no espaço, com tela de aço. A composição é remontada e fixada com costura no chassi. O que à primeira vista parece uma simples fotografia, à medida que o observador vai se aproximando percebe que aquilo que parecia volume dado por sombras, é volume dado pela mano-fatura. São trabalhos que são feitos para que o expectador esteja presente. Quando fotografados voltam à bi-dimensionalidade, e quem observa o trabalho impresso irá pensar que se trata de pintura. Faço pintura utilizando a fotografia, e a tinta entra para dar maior profundidade e dramaticidade, em volumes já existentes. A partir deste ano passei a compor de maneira a soltar cada plano. Da sustentação do chassi, passei para caixas em que os planos são colocados separadamente. A partir destas caixas fui para o espaço dando lugar à pequenas instalações que ficam suspensas por fios. E destas passei para a instalação inédita que está sendo mostrada nesta exposição. Cada trabalho é uma conversa entre tempos e espaços. Mas não é uma conversa morta. É uma conversa plena de significados e emoções, em que rompo a imobilidade e o silêncio da pedra. Desta ruptura nascem os rios vermelhos que escorrem das ruinas. As ruinas nestas composições são como estados de impermanência, que se contrapõe às paisagens urbanas contemporâneas, não possuindo um tempo definido. Situam-se num vácuo temporal porque me interessa pensar o presente e o passado não como situações opostas, mas como espelhos. Refletir a memória é pensar o presente. É avaliar a nossa transitoriedade e a nossa instabilidade do momento presente.

- Stella Mariz